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Revista


30

Julho/Setembro de 2005
CONTO(A)S

Nunca a água fez tanta falta no nosso País. Pelo menos no que a memória guardou entre as volutas cerebrais, não se recorda o autor destas despretensiosas linhas de um conjunto de acontecimentos que tenham motivado um pedido aquosogeneralizado como o que se verificou nos últimos tempos. E alente-se, já os serviços vieram anunciar que, por ora, é a pior seca dos últimos 60 anos.

Já não nos bastava a crise em que mergulhámos todos nós – e em que nos encontramos. Não vale, acrescente-se, colocar alguém de fora. Os que sofrem as consequências dramáticas deste período extremamente difícil são exactamente os mesmos que a encubaram e a pariram depois de anos de desvario e libertinagem. Que, acentue-se, nada a ver tem com a Liberdade.

Mas, como diz assisadamente o Zé Povinho, uma desgraça nunca vem só. Face ao quase colapso económico, com as consequentes terapias (???) a respeito das quais só se pode admitir o benefício da dúvida, as coisas estão pretas, como dizem os brasileiros. Desde o espingardar carregado e em múltiplas direcções dos que governam, para com os alegados faltosos, até à subida do IVA, passando por outros, muitos, sacrifícios, não sabemos para onde nos virar. Contabilizar isto tudo – como?

Chegou a seca, sem trombetas, nem tambores, nem címbalos a anunciá-la. Veio, apenas, trazendo no ventre esfomeado a sede, a esterilidade agrícola, a hecatombe de animais diversos, a queda asfixiante das reservas (?) de água, os rios secos, os peixes para «salvar» pelo recurso à sua transformação farinácea. E as torneiras vazias e os autotanques. Coluna do deve – milhões; do haver – quase nada.

Estávamos atolados todos nesse gigantesco pântano, quando saltaram à liça os incêndios de Estio. Pensava-se que já se tinha assistido, ano após ano, aos maiores fogos. Estultícia. Dizia-se que, cada vez mais, menos havia para arder. Infantilidade ou anedota espúria. Estávamos guardados para a ciclópica saga das labaredas, numa dimensão tal que remeteu para o rol dos diminutos o que anteriormente acontecera.

Mais choros e ranger de dentes. Podia lá ser. Às tantas, de tamanhas e incontroláveis, já nem se conseguia quantificar as chamas. Incêndios não circunscritos foram termos quase exclusivos dos noticiários. Nem, tão pouco, qualificá-las pois aparentemente os adjectivos que se usavam para o efeito estavam esgotados, tanto quanto a água nas mangueiras dos bombeiros. Por isso, em tais apertos, fazer contas – só se fossem de... sumir.

Quantos hectares já arderam? – estarão correctos os números «oficiais»?..E a quem aproveitam as labaredas ciclópicas? Que interesses se movem por trás delas? Quem se arrisca a arrostar com as máfias incendiárias? Maldição lançada contra este pequeno rectângulo plantado na margem ocidental do Atlântico? Por quem? Contra quem? Às perguntas, disse nada. A fórmula utilizada em termos processuais, aplica-se aqui, tanto quanto pensa o escrevinhador, com uma linearidade feroz. E, de resto, não convém alinharmos em tais considerações inconsequentes, irrazoáveis e, mesmo, acintosas.

Somos aquilo que somos. Com um défice de civismo que é apanágio de todos nós. E foi sempre assim. Quando Alexandre Herculano, lá pela sua quinta de Vale de Lobos, se deu ao trabalho de congeminar o poder local no Portugal de então, em pleno romantismo, escola na qual, aliás, o autor de «O bobo» participava, mal sabia o escritor reformado (ele o disse e escreveu) o que, muitos anos depois, as autarquias representariam. No caso das chamas, ao que elas chegaram...

Repete-se: nada de contabilidades sobre este negro período que estamos vivendo. Ai de nós se o fizéssemos e as contas saíssem... inundadas. Deitavam-nos fogo.

Antunes Ferreira


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